A Universidade Católica, em parceria com a Fundacion La Caixa, publicou, recentemente, os resultados de um estudo feito com o “objetivo de avaliar o impacto da covid-19 na pobreza e desigualdade em Portugal, bem como o efeito mitigador das políticas públicas de proteção”.

As conclusões deste estudo não surpreendem quem anda atento e no terreno. Mas não deixam de impressionar e deviam ser motivo de reflexão para quem tem a responsabilidade de implementar políticas sociais. De facto, em 2020 e em consequência da pandemia, 400 mil portugueses caíram abaixo do limiar de pobreza, aumentando a taxa de risco de pobreza em 25%! Sendo que o limiar da pobreza representa um rendimento anual inferior a 60% do rendimento mediano, com a agravante de este ter passado de 10,1 para 9,1 mil euros anuais durante 2020 – o que se traduz num empobrecimento generalizado da população. Diz também o estudo que as pessoas mais afetadas foram as das classes baixa e média-baixa, as da região do Algarve e as com escolaridade inferior ao 9.oº ano, ou seja as que já eram mais desfavorecidas.

Mas esta semana ficamos a saber também que, de acordo com estatísticas publicadas no Portal das Finanças, em 2020 foram transferidos capitais portugueses para offshores no valor de 6,8 mil milhões de euros (pouco menos que o valor do OE de 2021 para a Educação!). E estamos a falar, apenas, de transferências reportadas pela banca, dado que haverá muitas outras transferências sem registo. Sendo que este valor representa, em pandemia e em fase de empobrecimento do país, um aumento de 14,3% relativamente a 2019.

Este estudo e estes dados tiveram pouco impacto noticioso. O que entendo, porque são incómodos para os defensores do sistema económico em que vivemos e mais vale distrair as pessoas com velocidades, registos e marcas de travagem….Mas os verdadeiros problemas do país estão plasmados nestes números: a pandemia empobreceu muitos portugueses e alguns enriqueceram muito à custa da mesma.

*Engenheiro

“JN”, 5 de Julho de 2021