RADICALIDADE, A PALAVRA E A AÇÃO – Francisco Gonçalves

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Num recente artigo de opinião, publicado no jornal “Público”, António Sampaio da Nóvoa agradecia o sobressalto que a luta dos professores está a provocar na sociedade portuguesa. Têm sido vários destacados opinion makers a enveredar pela crítica às políticas educativas das últimas duas décadas. Fazem-no, e muito bem, com uma radicalidade na palavra que põe a nu o falhanço das políticas educativas, a erosão do estatuto e do papel do professor, a desvalorização material da profissão e da carreira docente, a crescente incapacidade da Escola Pública em cumprir o seu propósito de puxar os de baixo, de universalizar o direito à educação e ao ensino.

Sendo figuras públicas oriundas ou próximas do PS e do PSD, partidos que têm entre si repartido a gestão do ministério da educação, com dominância clara do PS, mais importância assume a radicalidade da crítica, ou não estivéssemos a falar de (ex)conselheiros, de (ex)contribuintes para programas eleitorais e de governo. A questão, porém, que me assalta, é se essa radicalidade na palavra teria consequência na ação governativa ou legislativa, caso fossem titulares de responsabilidade a esse nível.

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A biodiversidade e a privatização de todas as esferas da vida na Terra – Vladimiro Vale (membro da Comissão Política do PCP)

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A Con­fe­rência das Na­ções Unidas para a Bi­o­di­ver­si­dade de­correu em De­zembro do ano pas­sado, pre­si­dida pela China e re­a­li­zada no Ca­nadá. Par­ti­ci­param re­pre­sen­tantes de 188 países, que subs­cre­veram a Es­tra­tégia Global para a Bi­o­di­ver­si­dade de Kun­ming-Mon­treal, com o ob­jec­tivo de travar e re­verter a perda de bi­o­di­ver­si­dade, até à res­tau­ração dos ecos­sis­temas, es­ta­be­le­cendo como ob­jec­tivo pro­teger 30% do pla­neta e 30% dos ecos­sis­temas de­gra­dados até 2030.

Os nú­meros são pre­o­cu­pantes, apon­tando para um mi­lhão de es­pé­cies de plantas e ani­mais ame­a­çados de ex­tinção, e re­querem acção. Em Por­tugal, em 2021, o Con­selho Na­ci­onal do Am­bi­ente e do De­sen­vol­vi­mento Sus­ten­tável apon­tava para uma si­tu­ação pre­o­cu­pante: «de entre os ha­bi­tats com es­ta­tuto co­nhe­cido, 75% en­con­trava-se em es­tado mau ou des­fa­vo­rável» e «de entre as es­pé­cies com es­ta­tuto co­nhe­cido, 62% en­con­trava-se em es­tado mau ou des­fa­vo­rável».

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Amílcar Cabral

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✊ Amílcar Cabral compreendeu, no quadro da resistência antifascista em Portugal, que não havia nenhuma alternativa para a libertação dos povos dominados que não fosse a independência e que o momento histórico de a conquistar tinha chegado. E teve o génio de idealizar, mobilizar pessoas e meios, organizar, fazer avançar e liderar o movimento que havia de conduzir à independência da Guiné-Bissau em 1973 e de Cabo Verde em 1975. Outra questão actual é a da luta que continua para além da independência. Desde muito cedo Cabral estabeleceu como objectivos não só a libertação nacional mas também a emancipação social.

É por isso que é importante lembrar Amílcar Cabral, o patriota, o internacionalista amigo dos comunistas portugueses e do povo português, o guerrilheiro superiormente dotado. O seu vil assassinato nem impediu que poucos meses depois em Madina do Boé fosse proclamada a independência da Guiné-Bissau nem matou os seus ideais. Eles estão bem vivos nos dias de hoje e a África reerguer-se-á.

👉 «Alguns princípios do Partido», por Amílcar Cabral https://lisboa.pcp.pt/…/amilcarcabr…

👉 «Amílcar Cabral», por Albano Nunes, «Avante!», n.º 2298, 14 de Dezembro de 2017 http://www.avante.pt/pt/2298/opiniao/…

👉 «Serviços secretos portugueses assassinaram Amílcar Cabral», por Carlos Lopes Pereira, n.º 2043, 24 de Janeiro de 2013 http://www.avante.pt/pt/2043/temas/12… 👉

Declaração do PCP sobre o assassinato de Amílcar Cabral, «Avante!» (clandestino), Série VI, n.º 450, Fevereiro de 1973 http://www.ges.pcp.pt/bibliopac/imgs/…

👉https://www.pcp.pt/amilcar-cabral-foi…

Saúde Mental dos Jovens: um problema de saúde pública – Lara Pinho

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Debateu-se no passado dia 3, na Escola Secundária de Arouca, a Saúde Mental dos Jovens no âmbito das iniciativas do Parlamento Jovem, onde participei como representante do PCP. Este tipo de iniciativas é extremamente relevante e necessário para fomentar nos jovens o debate e o pensamento crítico sobre diversas temáticas para que possam formar a sua opinião com base em diversas perspetivas. É de enaltecer a participação ativa dos alunos e professores e o interesse na temática.

Se já antes da pandemia os problemas de saúde mental dos jovens eram uma constante, sendo o suicídio uma das principais causas de morte na faixa etária dos 15 aos 19 anos (dados da OMS), esta só veio agravar ainda mais o problema. Uma metanálise que analisou vários estudos internacionais concluiu que a ansiedade nos adolescentes passou de 11.6% para 20.5% e a depressão de 12.9% para 25.2%. Significam estes dados que 1 em cada 5 jovens apresenta ansiedade e 1 em cada 4 depressão. O confinamento e o distanciamento social, o medo de contrair e transmitir o vírus, o agravamento das condições socioeconómicas, e o mediatismo e alarmismo constante e diário através de todos os meios de comunicação, contribuíram para este agravamento.

Perante este problema que está mais do que identificado como devemos atuar?

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Eugénio de Andrade nasceu há 100 anos

Um colóquio internacional, congressos, exposições, concertos e leituras são algumas das iniciativas que arrancam hoje e vão decorrer ao longo do ano para celebrar o centenário do escritor e poeta.

Revista Caliban

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, foi um poeta comprometido com a liberdade. Autor de Homenagens e Outros Epitáfios, obra dedicada a figuras como Che Guevara, José Dias Coelho, Pasolini e Chico Mendes, nasceu em 19 de Janeiro de 1923, no Fundão, e morreu no Porto em 2005, aos 82 anos.

São, por isso, essas as duas principais cidades a organizar iniciativas de evocação desta data especial, como é o caso da exposição «Eugénio de Andrade, A Arte dos Versos», a inaugurar hoje na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, que tem como ponto de partida o espólio do escritor, doado pela Fundação Eugénio de Andrade à autarquia do Porto, e permite uma aproximação à vida e obra do poeta.

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Dino e o outro hino que Portugal cantaria – Joana Simões Piedade

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Tal como o músico, não queremos guerras, mas há uma luta a fazer neste País, a luta contra os «canhões» do racismo, das desigualdades, da intolerância e da injustiça social.

“Vai mas é para a tua terra», «Pode ser que encontres uma vaga nas obras», «Muda o hino de Cabo Verde», «Não gostas do hino? Muda de país».

Estas insuportáveis frases são apenas algumas das centenas que lemos e que têm como destinatário Dino D’Santiago, multi-premiado músico, cúmplice artístico de Madonna quando a cantora norte-americana vivia em Portugal, criador do projecto de sucesso «Lisboa Criola», assente nas ideias de cruzamentos, mistura, miscigenação, do encontro entre as culturas portuguesa e africanas.

Um músico-estrela respeitado e aclamado de forma transversal na sociedade portuguesa, dos bairros sociais ao poder político, durante o tempo em que, no fundo, – preconceito e leitura minhas – foi reinventando uma espécie de lusotropicalismo urbano-lisboeta no século XXI.

Mas a linguagem discriminatória, racista e abusiva de que Dino D’Santiago tem sido alvo nos últimos tempos parece que o faz passar de «bestial a besta». Porquê?

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Revolta da Marinha Grande

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No dia 18 de Janeiro de 1934, na Marinha Grande os objectivos da greve geral revolucionária foram cumpridos: os operários tomaram o poder. Cercada a vila e cortados os acessos, os trabalhadores marinhenses ocuparam os Correios e o posto da GNR

. Segundo recorda o antigo dirigente comunista Joaquim Gomes, «por umas horas, quem mandou na Marinha Grande foram os trabalhadores». Apenas por algumas horas, é certo, pois a repressão esmagaria a revolta.

ℹ Sabe mais: Brochura evocativa nos 73 anos da Revolta da Marinha Grande ➡ http://www.pcp.pt/node/286045Mostrar menos

Revisores – Gustavo Carneiro

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É na­tural que um pro­cesso de re­visão cons­ti­tu­ci­onal sus­ci­tado pelo Chega pro­voque re­pulsa em todos quantos vêem na Cons­ti­tuição da Re­pú­blica Por­tu­guesa um ga­rante de di­reitos, de li­ber­dades e da pró­pria de­mo­cracia.

E não é para menos, pois a ex­trema-di­reita nunca es­condeu ao que vinha: quer re­fundaro re­gime e en­terrar a Cons­ti­tuição (que con­si­dera es­go­tada), não es­conde o ódio a Abril e atenta aber­ta­mente contra con­quistas ci­vi­li­za­ci­o­nais. No seu pro­jecto, ad­mite a prisão per­pétua e a cas­tração quí­mica, alarga a pos­si­bi­li­dade de ob­tenção e uti­li­zação de in­for­ma­ções pes­soais e fa­mi­li­ares de forma abu­siva ou con­trária à dig­ni­dade e da vi­o­lação de do­mi­cílio, cor­res­pon­dência e co­mu­ni­ca­ções, li­mita o di­reito de asilo e reduz o nú­mero de de­pu­tados (e, com ele, a pro­por­ci­o­na­li­dade). Mas se é pe­ri­goso des­va­lo­rizar estas pro­postas, não o é menos li­mi­tarmos a elas a nossa in­dig­nação e, so­bre­tudo, o nosso com­bate. É que o Chega não está so­zinho em muitas das aber­ra­ções que propõe e há ou­tras, com ori­gens di­versas e até con­ver­gên­cias alar­gadas: da pos­si­bi­li­dade de in­ter­na­mento com­pul­sivo de do­entes ao alar­ga­mento da missão das Forças Ar­madas pe­rante ame­aças in­ternas, pas­sando pela des­ca­rac­te­ri­zação do SNS e da Es­cola Pú­blica em favor dos in­te­resses pri­vados, uma forma de dar co­ber­tura (e es­tí­mulo) a um pro­cesso ver­go­nhoso que há muito está em curso.

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PROPOSTA DO PCP: CONTROLO DE PREÇOS DO CABAZ ALIMENTAR

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PS, PSD, IL e Chega juntam-se novamente para rejeitar a proposta do PCP.

Hoje, onde podemos verificar um aumento desenfreado dos preços dos bens essenciais, onde milhões de familias fazem contas para que possam pôr comida na mesa, fica cada vez mais claro que só o controlo de preços pode pôr fim a esta verdadeira roubalheira e que nem a política assistencialista e miserabilista do Governo PS (de entregar ajudas pontuais), nem umas meras baixas de impostos (que, como de costume, serão comidas pelos grandes supermercados), são alternativa. Pôr a vida da maioria à frente dos lucros de uma pequena casta, é o que está em discussão.

❌A proposta foi rejeitada com os votos contra do PS, PSD, IL e Chega

PROPOSTA PCP: RECUPERAR A GESTÃO PÚBLICA DA ÁGUA E SANEAMENTO

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O PCP entende que os serviços de abastecimento de água devem estar ao dispôr do interesse público e às necessidades do País. Deste modo apresentou a proposta de proibir a sua entrega a entidades privadas, impedindo a renovação ou prorrogação das concessões.

Os resultados das privatizações têm-se demonstrado ruinosos para as Autarquias Locais. Por todo o mundo há centenas de reversões para a gestão pública, como é o caso de Paris. Também em Portugal, temos o recente exemplo da autarquia de Setúbal, que reverteu para a esfera pública a gestão do abastecimento de água, reintegrando os trabalhadores, garantindo a continuidade do serviço e a redução de preços aos consumidores.

A proposta foi rejeitada com os votos contra do PS, PSD e IL

Garantia – Anabela Fino

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A As­sem­bleia Geral da ONU aprovou uma re­so­lução, a 30 de De­zembro, so­li­ci­tando ao Tri­bunal Penal In­ter­na­ci­onal (TPI) um pa­recer con­sul­tivo sobre as «con­sequên­cias le­gais de­cor­rentes da vi­o­lação con­tínua por Is­rael do di­reito do povo pa­les­ti­niano à au­to­de­ter­mi­nação, da ocu­pação pro­lon­gada, co­lo­ni­zação e ane­xação do ter­ri­tório pa­les­ti­niano ocu­pado desde 1967, in­cluindo me­didas des­ti­nadas a al­terar a com­po­sição de­mo­grá­fica, ca­rácter e es­ta­tuto da Ci­dade Santa de Je­ru­salém, e da adopção de me­didas dis­cri­mi­na­tó­rias».

A re­so­lução, que Is­rael pro­curou im­pedir exer­cendo pressão sobre di­versos países, contou com a opo­sição dos EUA, Reino Unido, Aus­trália, Áus­tria, Ca­nadá, Ale­manha e Itália, onde se gere prin­cí­pios con­so­ante os azi­mutes. A (in)co­e­rência é par­ti­cu­lar­mente acen­tuada pelo facto de, dois dias antes da de­li­be­ração da ONU, o novo go­verno de Ben­jamin Ne­tanyahu, ao tomar posse, ter pro­cla­mado que o «povo judeu tem di­reito ex­clu­sivo e ina­li­e­nável a todas as partes da Terra de Is­rael», in­cluindo os montes Golã sí­rios ile­gal­mente ane­xados e a «Ju­deia e Sa­maria», a Cis­jor­dânia.

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PCP condena acção de carácter golpista contra a democracia no Brasil

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O PCP condena veementemente os actos de carácter golpista levados a cabo nas instituições do poder federal em Brasília contra a democracia no Brasil.

O PCP insta ao cabal apuramento dos factos pelas autoridades brasileiras e à condenação e punição dos responsáveis pela instigação, promoção e participação directa nas acções golpistas reaccionárias.

Denunciando e repudiando as ameaças fascistas com que a democracia brasileira se defronta, e recordando que estes gravíssimos actos se inserem num processo de natureza fascizante tolerado e normalizado por alguns dos que agora o condenam, o PCP apela à continuação da expressão da solidariedade para com a luta do povo brasileiro em defesa da democracia e pelos seus direitos.

O PCP reitera a sua solidariedade a Lula da Silva, ao PT, ao PCdoB e demais forças democráticas e progressistas brasileiras que se empenham num Brasil mais justo, democrático e desenvolvido, que concretize as aspirações do povo brasileiro.

Lula defende democracia, critica governo anterior e já toma medidas

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Na tomada de posse como presidente da República, Lula da Silva dirigiu fortes ataques ao governo de Jair Bolsonaro e, fazendo um diagnóstico da situação, colocou o combate à fome como questão central.

Lula da Silva durante o segundo discurso da tomada de posse, no Palácio do Planalto, em Brasília, a 1 de Janeiro de 2023 CréditosMarcelo Camargo / Agência Brasil / Brasil 247

«O mandato que recebemos, frente a adversários inspirados no fascismo, será defendido com os poderes que a Constituição confere à democracia. Ao ódio, responderemos com amor. À mentira, com verdade. Ao terror e à violência, responderemos com a Lei e suas mais duras consequências», disse Lula no Congresso Nacional, onde tomou posse este domingo, pela terceira vez, como presidente do Brasil.

Lula da Silva, que não apontou o nome de Jair Bolsonaro – que na sexta-feira passada se ausentou do país, partindo para os EUA –, fez em Brasília a defesa da democracia: «Sob os ventos da redemocratização, dizíamos: ditadura nunca mais! Hoje, depois do terrível desafio que superámos, devemos dizer: democracia para sempre.»

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Fuga de Peniche

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A 3 de Janeiro de 1960 ocorre uma das mais espectaculares evasões de toda a história do fascismo – a fuga de Peniche – que assumiu, pelas características de que se revestiu e pelas consequências que viria a ter na vida política nacional e do próprio Partido, uma importância e um significado marcantes.

Ela foi, em primeiro lugar, uma grande vitória do Partido – uma vitória conseguida pela superior organização prisional partidária em estreita articulação com a organização do Partido no exterior – que recuperou para a luta um elevado número de destacados quadros e dirigentes comunistas: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues.

Mas foi muito mais do que isso. Foi como que abrir uma fenda na muralha do regime fascista.

———Imagens da recriação, a 3 de Janeiro de 2014, da Fuga de Peniche enquadrada na Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal.

Militão Ribeiro

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A 2 de Janeiro de 1950 morreu, na Penitenciária de Lisboa, Militão Bessa Ribeiro, membro do Secretariado do Comité Central do PCP, assassinado pelo fascismo de modo particularmente cruel. Tinha 53 anos de idade, dez dos quais passados nas prisões, com duas passagens pelo Campo de Concentração do Tarrafal.

O seu cadáver pesava apenas 32 quilos e a sua imagem evocava imediatamente os prisioneiros dos campos de extermínio nazi-fascistas. Nas cartas que conseguiu enviar para o exterior da Penitenciária, uma delas escritas com o próprio sangue, Militão Ribeiro fala do seu lento e cobarde assassinato, denunciando os maus tratos a que era sujeito, a alimentação desadequada e a assistência médica insuficiente.

Sabe mais em ➡️ http://www.pcp.pt/node/261787

100 Anos da fundação da União Soviética

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Em 30 de Dezembro completaram-se 100 anos da fundação da União Soviética. Foi no célebre teatro Bolshoi de Moscovo que a 30 de Dezembro de 1922 os mais de dois mil delegados do I Congresso de Sovietes da URSS aprovaram por unanimidade a Declaração e Tratado constituintes do novo Estado.

Este acontecimento maior foi antecedido pela realização de congressos das repúblicas soviéticas, endossando o projecto de formação da URSS e o seu carácter voluntário. Foram quatro as repúblicas fundadoras da União Soviética: a RSFS da Rússia, a RSS da Ucrânia, a RSS da Bielorrússia e a RSFS da Transcaucásia, agrupando a Geórgia, Azerbaijão e Arménia.

Após o histórico acto de proclamação da URSS, o processo de formação dos órgãos do novo poder estatal e definição das respectivas bases constitucionais prosseguiu intensamente nos meses seguintes, conduzindo à aprovação e entrada em vigor da primeira Constituição da URSS (6 de Julho de 1923) e à sua ratificação final no último dia de Janeiro de 1924, durante o II Congresso de Sovietes da URSS.

O surgimento da URSS constituiu um extraordinário empreendimento colectivo saído das entranhas e oficinas da história, tendo como fio condutor o papel destacado assumido pelo partido bolchevique.

A proclamação da URSS, cinco anos depois da Revolução de Outubro, ergueu-se sobre os escombros da velha Rússia. Quando os bolcheviques tomaram o poder, o vasto Império Russo – encerrando mais de 100 povos, etnias e línguas – encontrava-se num processo acelerado de desintegração.

O novo poder havia passado o duríssimo exame da guerra civil e intervenção militar estrangeira (1918-1921), através do desembarque ou envolvimento de contingentes militares de 14 países, incluindo a Alemanha, Checoslováquia, França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Japão, numa demonstração nodal da convergência de classe entre as principais forças beligerantes da I Guerra Mundial, representada dentro da Rússia pelo movimento da Guarda Branca apoiado pelos agressores externos.

A fundação da URSS enquadra-se numa época de grandes rupturas e transformações revolucionárias. É indissociável do triunfo da Revolução de Outubro de 1917.

A Revolução de Outubro é um momento histórico lapidar. Correspondeu à mais profunda transformação social na história multissecular da Rússia e inaugurou definitivamente uma nova época mundial, de transição ao socialismo. Ao longo de um século XX tumultuoso, percorrendo um caminho complexo e sinuoso, a URSS desempenhou um papel fulcral nas conquistas dos trabalhadores e grandes avanços libertadores da humanidade, do processo pioneiro (inacabado) de construção socialista à libertação dos povos oprimidos e o fim dos impérios coloniais; da derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial ao triunfo das novas revoluções socialistas e emergência do campo socialista na cena internacional.

A resistência antifascista e triunfo da Revolução da Abril no nosso país e a conquista da independência pelos povos das antigas colónias portuguesas em África transporta igualmente as suas marcas.

A URSS existiu 69 anos e o poder soviético na Rússia 74 anos. O seu desmantelamento, arrastando a época de refluxo que lhe sucede e moldando todo um conjunto de consequências marcadamente negativas no plano mundial não apaga contudo, o significado da existência e percurso históricos da URSS. A sua transcendência continuará a marcar o mundo, perante o aprofundamento da crise estrutural do capitalismo e os seus perigos.

Futebolista palestiniano assassinado pelo exército israelita

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Ahmad Atef Daragmah, 23 anos, ponta-de-lança da equipa Thaqafi Tulkarem, foi morto a tiro pelas forças de ocupação israelitas em Nablus. Face ao crime, a solidariedade ocidental fica muda e calada.

Ahmad Atef Daragmah, 23 anos, ponta-de-lança da equipa Thaqafi Tulkarem, foi morto a tiro por Israel no dia 21 de Dezembro de 2022 Créditos/ Palestina Hoy

É difícil não traçar paralelos com o caso do jogador iraniano Amir Nasr-Azadani, detido pelas autoridades e, supostamente, ameaçado com a pena de morte pela sua participação em protestos que, acusa o regime iraniano, resultaram na morte de polícias. Embora ainda não tenha sido confirmada qualquer sentença, a sua situação motivou dezenas de declarações de solidariedade de figuras públicas e associações desportivas e de direitos humanos.

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O Parlamento Europeu, o Catar e o campeonato mundial da corrupção – Miguel Viegas

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Este escândalo é mais um exemplo que demonstra, até à saciedade, a natureza de classe da União Europeia, criada para defender os interesses dos grandes grupos económicos.

Patrick Seeger / EPA

O caso de corrupção que envolve o Catar e o Parlamento Europeu já fez correr rios de tinta na imprensa nacional e internacional. Como é costume, pretende-se passar a imagem de um caso isolado, uma espécie de gripe sazonal, necessitando apenas de um mero paliativo para tudo voltar à normalidade. Para nós, este escândalo, envolvendo deputados, ex-deputados, pseudo-sindicatos e organizações não governamentais (ONG), é mais um exemplo que demonstra, até à saciedade, a natureza de classe da União Europeia, criada para defender os interesses dos grandes grupos económicos.

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CONTRA O TRIBALISMO, PELA CIDADE – Francisco Gonçalves

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Uma amiga minha que assistiu à estreia, no Teatro Nacional de São João, da peça de teatro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, na versão cénica de Clàudia Cedó,  andou todo o santo fim-de-semana a repetir um trecho do manual de leitura da dita:

“Porque foi que cegamos, Não sei, talvez um dia

se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga

o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso

que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que,

vendo, não veem.

A mulher do médico levantou-se e foi à janela.

Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo

Para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois

levantou a cabeça para o céu e vi-o todo branco,

Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la

baixar os olhos A cidade ainda lá estava.”

De há uns anos a esta parte, temos assistido – mais ainda agora, com a consolidação das redes sociais como espaço de vida pública -, a uma fragmentação da CIDADE, concomitante com o  crescendo da lógica grupal, tribal. Um tribalismo construído em torno de causas políticas, religiosas, culturais, geracionais. Autênticas seitas, tal é o grau de agressividade, de desprezo e de ódio a tudo que está para além da tribo, proporcional ao fervor e ligação à tribo e aos seus membros.

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