É in­ques­ti­o­nável o papel de­ter­mi­nante que a co­mu­ni­cação, nas suas di­fe­rentes ex­pres­sões, de­sem­penha em po­lí­tica. Para es­cla­recer dú­vidas, cla­ri­ficar po­si­ções, con­quistar apoios ou mo­bi­lizar (para o voto como para com­pro­missos mais pro­fundos), é es­sen­cial co­mu­nicare cada um o faz com os meios que tiver à sua dis­po­sição.

Questão mais com­plexa, e se­gu­ra­mente menos unâ­nime, é a do teor das men­sa­gens di­fun­didas e a sua re­lação com a re­a­li­dade. Ser­vindo di­fe­rentes in­te­resses e re­pre­sen­tando op­ções di­versas, podem até vei­cular men­tiras ou, pelo menos, meias-ver­dades. Os car­tazes do PS para as elei­ções de Ja­neiro são pró­digos nestas úl­timas.

Va­lo­ri­zando avanços con­cre­ti­zados desde 2015, os ditos car­tazes atri­buem-nos à acção go­ver­na­tiva, in­cluindo aqueles que foram al­can­çados apesar das re­sis­tên­cias do PS e até, não poucas vezes, da sua opo­sição. E nada dizem acerca das li­mi­ta­ções im­postas a essas me­didas po­si­tivas por meio de ca­ti­va­ções e de re­gu­la­men­ta­ções cri­a­tivas, que lhes tol­daram o al­cance e sub­ver­teram o sig­ni­fi­cado.

Gaba-se o PS, num deles, de ter criado 500 mil em­pregos, feito in­dis­so­ciável – lem­bramos nós – de um cres­ci­mento eco­nó­mico pos­si­bi­li­tado pela so­lução po­lí­tica aberta pelo PCP, na sequência das elei­ções de 2015, en­quanto o PS fe­li­ci­tava a di­reita ven­ce­dora e se pre­pa­rava para mais uma dança de ca­deiras in­terna e o BE se com­prazia com re­sul­tados pró­prios. Já sobre a qua­li­dade destes novos em­pregos, nem uma pa­lavra, sendo que ainda em Se­tembro o INE re­ve­lava que no pri­meiro se­mestre de 2021 oito em cada dez novos postos de tra­balho foram cri­ados com re­curso a con­tratos a termo ou de pres­tação de ser­viços. Não será des­pro­po­si­tado lem­brar que nestes anos o PS só mexeu nas leis la­bo­rais para as agravar…

Noutro cartaz, em que se van­gloria pelo au­mento dos ren­di­mentos das fa­mí­lias, o PS não se re­fere à re­sis­tência que opôs aos vá­rios au­mentos ex­tra­or­di­ná­rios das re­formas e pen­sões, ao modo como li­mitou su­ces­sivas va­lo­ri­za­ções do sa­lário mí­nimo (au­fe­rido hoje por 900 mil tra­ba­lha­dores), à re­cusa em eli­minar a ca­du­ci­dade da con­tra­tação co­lec­tiva e à pas­si­vi­dade com que en­carou a alta de preços de bens e ser­viços es­sen­ciais.

Que a co­mu­ni­cação po­lí­tica re­quer cri­a­ti­vi­dade e ca­pa­ci­dade de sín­tese nin­guém nega. Mas exigia-se também algum rigor e ho­nes­ti­dade, bem mais raros por aqueles lados.

“Avante!”, 30 de Dezembro de 2021