A co­mu­ni­cação so­cial do­mi­nante di­funde a tese de que a Fe­de­ração Russa se pre­para para in­vadir a Ucrânia. Face ao «pe­rigo russo» mul­ti­plicam-se os «avisos» e as ame­aças dos EUA, NATO e União Eu­ro­peia. A lin­guagem, o tom e as acu­sa­ções re­metem-nos para os tempos da di­a­bo­li­zação da União So­vié­tica. O pa­ra­le­lismo de lin­guagem e mé­todos é tal que deu para um «des­lize» do Se­cre­tário da De­fesa norte-ame­ri­cano, Lloyd Austin, que afirmou que o «me­lhor ce­nário… é não vermos uma in­cursão da União So­vié­tica na Ucrânia».

Os tempos são di­fe­rentes. A Fe­de­ração Russa nada tem que ver com a União So­vié­tica. Mas há algo que não mudou: a na­tu­reza, ob­jec­tivos e mé­todos do im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano e seus ali­ados para jus­ti­ficar a sua po­lí­tica agres­siva. O pe­rigo de um con­flito mi­litar no con­ti­nente eu­ropeu existe de facto, mas se acon­tecer é porque os EUA e a NATO o de­sejam e o pro­vo­caram. A ope­ração de ma­ni­pu­lação e de­sin­for­mação em curso visa jus­ti­ficar essa opção, com men­tiras.

A ver­dade é que foram os EUA, a NATO e a União Eu­ro­peia que es­ti­veram por de­trás do golpe de Es­tado na Ucrânia que co­locou no poder forças aber­ta­mente fas­cistas e anti-rus­só­fonas, abrindo o campo para di­vi­sões no país, para o ac­tual con­flito in­terno e para a trans­for­mação da Ucrânia num dos campos de ex­pansão da NATO a leste até às fron­teiras da Rússia.

A ver­dade é que foram os EUA que ras­garam ou aban­do­naram tra­tados fun­da­men­tais para o equi­lí­brio es­tra­té­gico, no­me­a­da­mente nu­clear, e que ins­ta­laram no leste da Eu­ropa ar­ma­mento pe­sado, o seu sis­tema «an­ti­míssil» e de­zenas de mi­lhares de mi­li­tares e que in­jectam mi­lhares de mi­lhões de dó­lares de ar­ma­mento em vá­rios países, como a Ucrânia.

A re­a­li­dade é que foi o re­gime ucra­niano que fez des­locar 110 mil efec­tivos para junto das re­giões de Lu­gansk e Do­netsk e que de­sen­ca­deou ope­ra­ções mi­li­tares que vi­olam os Acordos de Minsk.

A ver­dade é que foram os EUA que re­a­li­zaram em No­vembro mais de dez voos de bom­bar­deiros es­tra­té­gicos na re­gião si­mu­lando ata­ques nu­cle­ares à Fe­de­ração Russa, e que estão a re­forçar ainda mais a sua pre­sença mi­litar nesta re­gião.

Clas­si­ficar a des­lo­cação de tropas russas no seu pró­prio ter­ri­tório, em res­posta à agres­si­vi­dade pro­vo­ca­tória dos EUA e da NATO, como um pe­rigo e uma agressão, seria uma piada se não fosse uma ope­ração que no ime­diato tem como ob­jec­tivo cen­tral dar co­ber­tura a uma pos­sível agressão mi­litar a mando do cor­rupto pre­si­dente ucra­niano contra as po­pu­la­ções que no País re­sistem ao fas­cismo e à xe­no­fobia ali­men­tados pela NATO. Tal como nou­tros pe­ríodos his­tó­ricos o im­pe­ri­a­lismo não olha a meios para alargar o seu do­mínio, in­cluindo re­correr à guerra e ao fas­cismo.

“Avante!”, 9 de Dezembro de 2021