A propósito do falecimento na semana passada de Alexandre Soares dos Santos, fundador da Jerónimo Martins / Pingo Doce e um dos homens mais ricos do país, desenrolou-se o habitual cortejo de declarações e análises à biografia. Quase sem excepção, sucederam-se os elogios ao self mad man, ao «empresário de visão», ao «mecenas» da Pordata e do Oceanário. Repetiram-se vezes sem conta as imagens em que Soares dos Santos parece indignar-se com os baixos salários no sector do comércio, sem questionar sequer quais as condições de trabalho na empresa que durante quase 50 anos liderou.

Mas o elogio que mais perplexidade causou foi o de Marçal Grilo, ministro da educação do PS entre 1995 e 1999, que actualmente faz parte do Conselho de Curadores da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Afirmou: «era um grande português, foi um grande patriota, um grande empresário e um grande filantropo».

Não deixa de ter graça: de entre tantas palavras que a língua portuguesa tem que estariam bem num elogio fúnebre, Marçal Grilo não encontrou melhor do que «patriota»? «Patriota» para se referir ao dono de um dos maiores grupos económicos do País, que durante anos fez publicidade à sua suposta «responsabilidade social», e que em 2011 mudou a sede da empresa para a Holanda para não ter de pagar impostos, esse grande aborrecimento? «Patriota», quando se referia ao dono de uma das empresas que mais desprezo revela pela produção nacional? «Patriota» para elogiar o empresário que se recusava a aumentar os salários aos trabalhadores mas promovia uma espécie de banco alimentar interno?

É certo e é expectável que ocasiões como efemérides ou funerais sejam aproveitadas para projectar uma certa imagem, não só do homenageado como de determinada visão da sociedade. Mas podiam disfarçar melhor.

“Avante” a 22 de Agosto