«Os portugueses têm demasiadas consultas médicas. É um consumismo da saúde», afirmou Ana Jorge, ministra da Saúde em exercício, durante uma conferência na Lourinhã.

Ouve-se e não se acredita: a senhora terá noção de que para milhões de portugueses esta afirmação é ofensiva? O que caracteriza a vida dos portugueses não são consultas a mais – são consultas a menos. Há dificuldades nos cuidados primários, preventivos, com larguíssimas centenas de milhares de utentes sem médico de família, numa situação que todos os dias se agrava com a saída de médicos do Serviço Nacional de Saúde. O encerramento de serviços de saúde, particularmente no interior do País, afastou ainda mais populações inteiras dos cuidados primários. São cada vez mais as especialidades médicas por cuja consulta se aguarda meses, para já não falar daquelas que são praticamente inexistentes no serviço público, como a medicina dentária ou a oftalmologia.

O «consumismo da saúde» de que Ana Jorge fala até pode ter tido eco em alguns meios de comunicação social. Mas é um conceito que intrigará a esmagadora maioria dos portugueses, habituados exactamente ao oposto.

O objectivo da ministra é óbvio: se os portugueses consomem demasiada medicina, e se tudo o que é demais é moléstia, há que cortar – a bem da saúde, claro está. Para isso, nada melhor do que o que está assinado no programa eleitoral comum do PS, do PSD e do CDS com a troika para a área da saúde: aumento das taxas moderadoras, fim de isenções, cortes brutais nos serviços hospitalares, aumento dos preços dos medicamentos, ainda maiores limitações à contratação de profissionais, etc.

O PS bem pode gritar aqui d’el rei que aí vem o PSD privatizar a saúde. Bem pode Sócrates apelar como apelou no comício de Viseu: «o SNS vai a votos, o SNS vai estar em causa nestas eleições. E é por isso que peço a todos os socialistas, aos simpatizantes, a todos os que olham com orgulho para o SNS para que se empenhem nestas eleições». Os governos do PS, com ministros como Correia de Campos ou Ana Jorge, ficam para a história como dos mais prejudiciais para a saúde dos portugueses. Por uma vez, Sócrates tem razão: o SNS vai mesmo a votos nestas eleições. E defendê-lo é votar na CDU.

 

in Avante de 26 de Maio