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Rio de Frades, uma das quatro povoações da freguesia de Cabreiros, é um lugar dúplice: a aldeia serrana, de xisto, suspensa num apertado patamar a meio da escarpa, com algumas centenas de anos na pele e, mais abaixo, ao longo do ribeiro, o couto mineiro do século passado. Na contagem de população de 1527 não há registo de população no lugar; até ao início da exploração do volfrâmio os habitantes amanhavam a terra com a própria carne, depois rasgaram as entranhas das encostas, romperam galerias, em busca de filões que, aqui, dormiam o sono das pedras, ligeiramente inclinados para poente. Nessa altura, entre mineiros e “pilhas”, eram, dizem os antigos, milhares, até estrangeiros. Hoje a gente rareia, o lugar envelhece prematuramente, como um girino antes de chegar a rã, a meio de uma inesperada metamorfose. 

O silêncio da paisagem não cala os ecos da febril quimera. O brilho ilusório da riqueza escondida na rocha atraiu forasteiros de quanto era sítio, nascendo assim uma cidade efémera, onde havia tudo – bairro operário, hospital, escola, refeitório, comércio, GNR. Finda a 2º Guerra, como se tudo aquilo não fosse mais do que um estúdio de cinema, os ânimos serenaram e, num ápice se desmontou a tenda. Acabara a vertigem. Foi cada um para seu lado, de volta à côdea que o diabo não se cansa de amassar, ou a salto, sem bulir nem tugir, para a França. O mel escoara-se por entre os dedos e ninguém gosta de andar de cavalo para burro.

Os edifícios do couto mineiro degradam-se, sem pressas, as minas, extintas em 1990, jazem ao abandono, são o que sobra da febre do volfrâmio em Rio de Frades.

Em “Volfrâmio” Aquilino Ribeiro cava fundo e, amiúde, ilustra a contradição da recente exploração deste minério, usado para endurecer o aço, em especial o usado no fabrico de armamento. A ele a última palavra:

“O Volfrâmio foi para as populações do Norte, deserdadas de Deus, o que o maná foi para os Israelitas através do deserto faraónico.”

 

(…)

 

“Sábados à noite, por via de regra, vinham camiões de seis rodas velozes e surdos, da cor do chumbo, tapados como arcas; carregavam debaixo do olho vigilante dos fiéis a sacaria pesada e lacrada. E selados a sete selos abalavam e lá iam em recova, depois de munidos das respectivas guias fiscais, pelas estradas intermináveis, sempre direitos a leste, para o país negro dos altos-fornos.”