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Não obstante o actual edifício do Mosteiro de S. Pedro e S. Paulo ter origem nos séculos XVII e XVIII, ter sido alvo de vários restauros desde então, o último dos quais já no início do século XXI, a sua fundação antecede a nacionalidade.

O arquitecto maltês Carlos Gimac, considerado o melhor do reino, à época, foi o responsável pelo projecto de construção da igreja e do coro, auxiliado por artistas de nomeada que deram forma ao cadeiral e talha dourada da sala do coro, Mestres António Gomes e Filipe dos Santos, além de Luís Vieira da Cruz, talha dourada da igreja, Diogo Teixeira e Miguel Francisco da Silva, entre outros, todos eles contribuindo para uma funcionalidade quase perfeita, aliada à sumptuosa decoração.Do mosteiro medieval não restam vestígios. Por volta de 1210 o rei de Portugal, D. Sancho I, doou o mosteiro a uma das suas três filhas, a princesa real D. Mafalda e, nessa altura, consolida-se e expande-se o seu património e aumenta o seu prestígio no seio dos poderes político e religioso. Em 1226 o Mosteiro adopta, por decisão de D. Mafalda, a regra da Ordem de Cister. Daí, até à extinção das ordens religiosas, no século XIX, o Mosteiro de Arouca tutelou um vasto e rico património (terras gordas e finas jóias provenientes de doações, legados, heranças, sentenças judiciais e composições amigáveis), governou as gentes e as almas, foi o centro do poder espiritual e político neste território.

Hoje o Mosteiro alberga um Museu de Arte Sacra, acolhe espectáculos musicais (o restaurado órgão de tubos é uma raridade viva) e outros, na igreja, sala do coro e claustros. É muito visitado e é o principal elemento identificador do concelho.

Sobre o Mosteiro de Arouca, Miguel Torga verteu para o seu diário as seguintes impressões (“Diário III”, Arouca, 22 de Agosto de 1945):

“A moldura vazia de um Murillo roubado, um cicerone que começa a mostrar um órgão de 1200 vozes e acaba por levar a gente a uma fábrica doméstica de morcelas, e princesa D. Mafalda num túmulo de prata, muito reconfortada sobre cochins.

– Está conservada… – insinuei eu, a olhar ironicamente a cera da cara e da mão.

E o funcionário, espicaçado nos seus brios, esclareceu:

– Foi retocada… Autênticos são só os dentes, as pestanas e as unhas…

Diante desta córnea e calcária declaração, ainda cuidei que uma devota que rezava ao lado estremecesse. Mas não. A fé pode muito. Tanto que nem era preciso a igreja ter o trabalho de conservar as pestanas, os dentes e as unhas originais da santa…”