Todos os observadores – as Nações Unidas, as instituições internacionais, as organizações, os movimentos e partidos árabes e internacionais, os iraquianos fora dos círculos do poder em vigor no Iraque – apontam a dedo e alertaram mesmo a comunidade internacional, a ONU, os membros da Liga Árabe, os movimentos internacionais e árabes, para a situação trágica e as condições de vida dos iraquianos que vivem sob a ocupação, para a diminuição drástica de todas as possibilidade de viver uma vida normal se as condições que a invasão americana criou forem mantidas. E se os governo Al Maliki sustentado pelos Estados Unidos, pelas lideranças curdas e pelos partidos sectários pró-iranianos mantiverem suas políticas de repressão e corrupção generalizada, de falsificação de acontecimento e de mentiras como justificação.

O plano inicial de destruição do Iraque e da sua divisão em três entidades, dependendo de uma aliança entre os separatistas curdos, os religiosos iranianos fascistas e as actividades clandestinas dos serviços secretos israelenses, já era em si próprio um plano de engenharia social criminosa contrária a todas as obrigações de uma ocupação sob o direito internacional. A partir do mesmo que o exército iraquiano e os iraquianos empenharam-se em resistir à ocupação, esta e seus aliados afundaram em acções genocidas desastrosas não só para os iraquianos como também para os EUA, os países vizinhos do Iraque, a economia internacional, as relações, normas e padrões internacionais.

Aquilo a que se chama “processo político” não tem como fim senão efectuar esta divisão do Iraque. Mas todos aqueles que conhecem a região sabem desde o princípio que o plano dos EUA de destruir a identidade árabe-muçulmana do Iraque e de dividi-lo numa entidade sunita, numa sunita e numa curda irá directamente para o fracasso. A correr atrás desta miragem, os EUA produziram sete anos de mortes incessantes, de destruição e de terror para o Iraque e sete anos de derrota no combate aos iraquianos e à sua Resistência: um verdadeiro banho de sangue para o Iraque e um abismo financeiro para os EUA. Os Estados Unidos não ganharam senão a vergonha, uma crise financeira, as mortes injustificáveis dos seus filhos, uma agressão imperdoável, o declínio da sua imagem e uma desconfiança generalizada dos seus valores e das suas políticas.

Sim, os EUA conseguiram destruir o Iraque. Mas conseguir reconstruir um novo Iraque dividido em três entidades semi-autónomas, projecto que os think tanks estado-unidenses criaram para si próprios e para Israel, revela-se impossível. O Iraque é inquebrável. Os iraquianos, sua identidade e sua vontade, assim como a realidade geopolítica da região, não permitem nenhuma divisão do Iraque. Após sete anos de fracassos, ao invés de negociar com a Resistência e as forças anti-ocupação que ficaram fora do processo político americano para estabelecer a paz e as condições de uma retirada das suas forças armadas e devolver o Iraque aos iraquianos a fim de que possam reconstruir seu país, sua sociedade e sua vida, a administração Obama decidiu reviver o processo político falhado através de eleições falsificadas.

Com Obama, os EUA – os primeiros responsáveis pela situação trágica no Iraque – apresentaram as eleições iraquianas como o remédio para os problemas que eles próprios criaram e mantiveram. Na realidade, as regras que dominam o processo político, a repressão, a expulsão de todos os oponentes, a deportação forçada da maior parte da classe média para fora do Iraque reduziram estas eleições a uma simples peça de teatro que reproduz o mesmo processo político falhado a fim de que os EUA possam prolongar e consolidar seu controle sobre o Iraque e ao mesmo tempo isentar-se da sua responsabilidade quanto à situação trágica do país. Conseguir um dia de eleições nada tem a ver com as vidas quotidianas atormentadas dos iraquianos.

Para os EUA, as assinaturas do governo Maliki sobre o acordo do estatuto das forças (Status of Forces Agreement) e sobre os contratos petrolíferos libertaram-no de preocupações com quem governa, de como governa e para que fim governa. Como todos estes acordos são legalmente nulos e sem valor, e apesar das declarações inteiramente retóricas sobre a retirada das forças de combate americanas, os EUA terão à sua disposição dentro mesmo do processo político, processo dirigido pelos ladrões, chefes de guerra e agentes, forças que lhes asseguram que nenhuma força de oposição aos EUA possa existir sem ser imediatamente eliminada por outras forças do processo político ou directamente pelos EUA ou pelas suas forças de operações especiais. As forças no processo político são todas elas abertamente encorajadas a lutar uma contra a outra a fim de que não se oponham à ocupação e não apoiem a construção de um estado iraquiano unificado.

Nada mais claro quanto a esta estratégia do que o discurso do embaixador Hill em Washington. Todos os candidatos às últimas eleições, Allawi inclusive, estavam de acordo. As suas diferenças referiam-se à partilha do poder e à sua parte do bolo: o Irão e seu agentes recusam-se a integrar os sunitas na máquina política; os curdos não querem que os árabes se unam a fim de integrar Kirkuk na sua região ao Norte; Allawi e muitos outros criticam o sectarismo e o fascismo religioso mas não são hostis à invasão nem a uma desbaatificação suave; Maliki quer permanecer primeiro-ministro por eleições ou pela força. Aparentemente os resultados das eleições truncadas servem muito bem os planos estado-unidenses. O parlamento estará tão dividido quanto antes e o futuro governo será tão fraco quanto antes.

Há pelo menos dois aspectos que poderiam por em perigo e perturbar estes planos agradáveis aos EUA. O primeiro: enquanto os EUA nada fizeram para alterar a situação trágica do Iraque, deixando o trabalho sujo da repressão, da corrupção e das mentiras para os seus aliados locais, estes recusam-se agora a qualquer mudança. Utilizam meios e subterfúgios legais e ilegais (assassinatos, prisões, deportações e terror) para que os poderes possam permanecer nas mãos da aliança entre os dois partidos curdos e os dois partidos xiítas. A política de espera curda, as intervenções iranianas, as violências sectárias e as ameaças de Al Maliki de não reconhecer os resultados das eleições vão nesta direcção.

O segundo perigo para os planos estado-unidenses é a posição da resistência popular e das forças anti-ocupação em relação às eleições. Nenhuma destas forças apresentou uma lista ou candidatos oficiais, o que torna as eleições ilegítimas. Nem o partido Baath, nem o Taa’sisee, nem as associação dos Sábios Muçulmanos no Iraque, nem a esquerda anti-ocupação participaram mas deixaram a opção de boicotar ou votar aos seus partidários em função da situação local.

Se se analisa o número de votos por lista e por tema, pode-se imediatamente ver que o projecto de movimento anti-ocupação para um Iraque unificado obteve mais êxito e, portanto, que é a primeira força política do país.

Os votos em Kirkuk, Mosul, Diyal e Salheddin provam que os planos curdos de expansão não recebem o aval da população destes departamentos. Os partidos puramente religiosos, que sonham com um estado religioso, receberam menos de 2,5 milhões de votos num total de 12 milhões – apesar de durante sete anos terem utilizado o poder em seu próprio benefício com a bênção dos EUA. Aqueles que apoiam a divisão no Iraque numa entidade xiita, uma outra sunita e uma terceira curda – ou seja, o Iraqi National Accord (INA) e a Aliança Curda – não conseguiram arrecadar mais de um quinto de todos os votos elegíveis. É preciso mencionar que os Sadristas – que fazem parte do INA – apresentam-se como que a recusar a divisão do Iraque.

O número de eleitores que aceitam a hegemonia iraniana sobre o Iraque é muito fraco. O INA, que é o principal aliado dos EUA, obteve cerca de 2.095.000 votos em 18 milhões de elegíveis e em 12 milhões de votantes. Poder-se-ia acrescentar a metade da lista de Maliki se ela se desintegrar. Maliki, uma criação americana, apresenta-se a si próprio como sendo contra a hegemonia iraniana. Ver-se-á o que ele será quando não estiver mais no poder.

A situação faz com que o Iraque se encontre numa encruzilhada crucial. Uma das possibilidades é que os iraquianos ainda revivem quatro anos sangrentos após estes últimos sete anos de banho de sangue. A segunda possibilidade é que respeitando o seu desejo, os iraquianos possam finalmente repousar, viver em segurança e começar a construir um estado secular e novamente unificado. Os votos provaram que não haverá qualquer salvação a partir do processo político actual. A Resistência armada – que é o exército legal iraquiano –, além daqueles que boicotaram as eleições, daqueles que votaram por Allawi e pelas outras listas que a favor de uma mudança e de um Estado secular, dos refugiados – cuja maior parte são da classe média –, dos curdos não-separatistas que estão fora dos partidos governos, dos turquemenos, dos pobres que votaram pelos sadristas, dos cristãos, dos yazidis, dos intelectuais honestos, todos representam um público para o qual se crie um governo de salvação, governo que poderia reconstruir um Iraque democrático, independente e unificado. É dever das Nações Unidas, da Liga Árabe, dos países vizinhos do Iraque e dos iraquianos progressistas trabalhar a fim de permitir o nascimento deste governo.

A partir do momento em que os iraquianos se batem pela paz, pela estabilidade e pela democracia – resistindo e procurando um meio para reconstruir seu Estado soberano na base da igualdade dos cidadãos – eles defendem também os interesses dos países vizinhos, Irão inclusive, do mundo árabe, de todos os povos, de todos os países e de todas as forças que querem por fim às guerras, à violência, às relações baseadas na força, na exploração e na hegemonia do Ocidente nos assuntos internacionais, cuja primeira vítima verifica-se sempre ser o Terceiro Mundo. O Iraque está na primeira fila da luta por um mundo melhor.

Analista político iraquiano e membro do Comité Executivo do BRussells Tribunal.

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