Estocolmo

Como é que cem pessoas, ao irem à casa de banho, produzem combustível suficiente para fazer um carro andar? Bem-vindos ao país onde nada se perde.

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Hans Wradhe termina uma descrição das intermináveis exigências ambientais que precedem cada novo investimento na Suécia. Um dos nove jornalistas europeus presentes naquela pequena sala do enorme edifício da Agência para a Protecção do Ambiente (APA), em Estocolmo, tem uma dúvida: um projecto que não cumpra todos os requisitos pode ser autorizado, com o pretexto de um, digamos, potencial interesse público? O conselheiro sénior da APA não entende e pede para o jornalista se explicar melhor. Nova tentativa: nunca são abertas excepções com a justificação dos postos de trabalho e da riqueza que determinado projecto gera? O especialista faz uma pausa para mastigar bem a pergunta, que, nota-se, lhe soa ligeiramente ridícula. «Claro que não!». Segue-se uma explicação sobre a política de áreas protegidas.

«Uma das principais responsabilidades da APA é escolher as terras a comprar para as transformar em Parques Naturais…» Como? O Estado compra as terras para as proteger?! Hans volta a não perceber a dúvida do jornalista. Num misto de naturalidade e perplexidade, responde que sim, como se a pergunta tivesse sido feita apenas porque o interlocutor tem dificuldades em perceber o seu Inglês com forte sotaque escandinavo. Da protecção da paisagem, a apresentação sobre o organismo que tutela o Ambiente na Suécia passa para as multas. «São pesadas, sim, mas não é o valor que leva a indústria a esforçar-se por cumprir as regras. Aqui, as empresas consideram embaraçoso serem multadas.» Os jornalistas do Sul da Europa cruzam olhares. A recente eleição de Estocolmo para primeira Capital Verde da Europa, em 2010 (uma distinção criada pela Comissão Europeia), serve de símbolo à consciência de cidadania do maior país escandinavo. Mas há muita substância a sustentar o simbolismo.

A Suécia é um dos países ecologicamente mais avançados do mundo, não só nas inovações mas sobretudo na forma como as põe em prática. Aliás, o Ambiente vai precisamente ser o ponto central da presidência sueca da União Europeia, no segundo semestre deste ano. Há uma década, o Parlamento aprovou uma directiva geral a proclamar um objectivo: «Entregar à próxima geração uma sociedade em que a maior parte dos problemas ambientais tenham sido resolvidos.» O que espanta nesta ideia é ser mais que retórica – um país que recicla mais de 90% do seu lixo doméstico mostra que está mesmo a fazer por isso.

Qual desperdício? A Suécia trabalha para ser, até 2050, o primeiro país neutro em carbono. Significa que, daqui a 41 anos, não emitirá nem mais um grama de CO2 do que o volume que absorve. Para este propósito, os transportes representam o maior desafio, obrigando a uma mistura de respostas. Estocolmo é exemplo disso: ampliou o sistema de transportes públicos, criou portagens urbanas e aposta no abandono do petróleo. Neste momento, 30 dos autocarros e táxis da capital já são movidos a etanol de cana-de-açúcar e outros combustíveis verdes – 424 veículos, a maior frota citadina do género. Um terço corresponde a biogás produzido com o metano dos esgotos e com o lixo orgânico. «Cada centena de pessoas a ir à casa de banho dá-nos fuel suficiente para um carro», explica Eva Soderberg, da Agência de Transportes sueca. Mais de cem autocarros e muitos veículos particulares abastecem-se já em postos de biogás da cidade, uma solução dois-em-um: resolve-se o problema dos resíduos e ainda se consegue combustível a partir do que, noutros países, não passa de porcaria. Uma das mais severas medidas para descarbonizar Estocolmo foram as portagens para se entrar na cidade, em vigor desde Agosto de 2007 e que reduziram em 20% o uso do automóvel particular. Acontece que o novo imposto foi aprovado em referendo, não por decisão política. Estes resultados da vontade popular espantam um pouco menos ao saber-se, por exemplo, que 58% dos suecos estão dispostos a pagar mais impostos sobre os combustíveis, de acordo com um recente inquérito. Também ajudou terem as portagens sido antecedidas por uma reestruturação do sistema de transportes. Hoje, o tempo máximo de espera de um autocarro é inferior a seis minutos e não há paragens a mais de 300 metros de distância uma da outra. Três quartos de quem entra na cidade à hora de ponta fá-lo – sem surpresa – de transporte público. Apesar de ser a região mais rica da Suécia, Estocolmo conta apenas com 402 carros por mil habitantes, um número bem inferior aos 459 de média nacional.

As inovações ambientais espalham-se pelo resto do país e atravessam todas as classes sociais. Em Malmó, no Sul da Suécia, o bairro social de Augustenborg foi objecto de uma remodelação que muito jeito daria em cidades portuguesas: substituíram-se as telhas dos prédios por relva para resolver o problema das crónicas inundações-relâmpago da zona. Os telhados verdes absorvem metade da precipitação e travam a velocidade da água da chuva em 50 por cento. Naqueles 10 mil metros quadrados de telhados ecológicos (que custam, aproximadamente, o mesmo que os convencionais) há até pequenas hortas.

Em tempos de crise, investirem medidas ecológicas pode parecer uma excentricidade. Mas é uma opção consciente. «Pela primeira vez na história, o Ambiente pode ser uma saída para a crise, uma oportunidade para criar empregos», garante o ministro do Ambiente sueco, Andreas Carlgren. «Os efeitos das alterações climáticas mostraram-nos que perdas ambientais originam prejuízos económicos. O crescimento com baixo consumo de carbono é a nossa única hipótese.»Essa sintonia entre a defesa do Ambiente e o retomo económico é um dado adquirido. A NSR, empresa intermunicipal de Helsingborg, perto de Malmó, que transforma resíduos em biogás e fertilizante, obteve, no ano passado, 14 milhões de euros de lucro. A Sysav, outra firma da zona, produziu em 2007, a partir de quase um milhão de toneladas de lixo, 250 gigawatts de electricidade (mais de 25% da electricidade gerada por toda as barragens e mini hídricas de Portugal). E ainda aqueceu 60% das habitações de Malmó. Talvez por isso, Susana Millbäck, da Sysav, arregala os olhos face à revelação envergonhada do jornalista português. «Vocês», espanta-se ela, «não aproveitam o vosso lixo?!».

 

Texto retirado da revista VISÃO, de 7 de Maio de 2009.